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Certos livros abordam temas tão férteis, que fazem com que seus leitores, ao lado do conhecimento que vão acumulando em sua leitura, sintam se em uma fascinante viagem trans histórica, levados de um lado a outro entre espaços e tempos. São livros que abrem horizontes, ao invés de fechá los, permitindo que de suas páginas guardem se menos as conclusões do que o ímpeto de seguir por trilhas e rastros deixados ao longo da narrativa. São livros que guardam algo do ensinamento do poeta e, antes de tudo, manifestam e atiçam o desassossego e a curiosidade, próprias da atividade de pesquisa.Cidade, sociabilidade e patrimônio as capitais no império português e no Brasil é uma obra dessa natureza, cujas frases e questões ficam, como pirilampos, reverberando a cada texto, a cada travessia, nesse imenso mar de culturas luso brasileiro, caudaloso e complexo. De fato, parece inspirar se no vasto império português, que enfoca a partir sobretudo dos séculos XV–XVI, com a ocupação das ilhas da Madeira e dos Açores, atravessando, em suas quatrocentas páginas, reinos, povos, temporalidades e geografias.O tema que lhe dá sustentação é a ideia de cidade capital e dos atributos que, em um feixe de cidades, uma delas foi capaz de mobilizar para que fosse reconhecida como a cidade principal de um reino, de uma nação, de um império. A obra, assim, interroga se sobre o capital das capitais, sobre sua capitalidade. Nela, o Brasil é duplamente situado. As posições de suas principais cidades – Salvador e Rio de Janeiro, mas também São Luís e Belém – podem ser vistas e comparadas tanto nas estratégias geopolíticas e comerciais do império português até o século XVIII quanto, mais tarde, na nação independente, desde o século XIX até Brasília.O conjunto de suas contribuições nos permite meditar sobre a implementação de instrumentos, hipóteses e sistemas de organização de povoações e regiões, bem como de governo, que foram pensados e experimentados no além mar português e mesmo no reino. Pode se dizer que tal conjunto, pelas questões que contempla direta ou indiretamente – a Amazônia, a escravidão, o estatuto da propriedade das terras americanas e o direito dos índios, a tolerância religiosa ou, enfim, a construção e o declínio de impérios –, ao falar do passado, insere a história e a memória no presente e na vida. É, em suma, livro de atualidade. — Margareth da Silva Pereira.